20X PORNOCHANCHADA


Um verdadeiro resgate de uma das fases mais produtivas do cinema nacional foi contado na Mostra 20X Pornochanchada, com a exibição de 20 filmes e 33 cartazes, entre os dias 9 e 22 de maio, na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro. A mostra foi realizada pela Associação Franco Cultural, com patrocínio da Caixa Econômica Federal.

“Soninha Toda Pura” (Aurélio Teixeira, 1971), “Possuídas pelo Pecado” (Jean Garret, 1976), “Escola Penal de Meninas Violentadas” (Antonio Meliande, 1977), “Ninfas Diabólicas” (John Doo, 1979) são alguns dos títulos que fizeram parte desta mostra.

Hoje, enquadrar um filme nessa categoria parece representar uma espécie de insulto, de acusação. Chula, imoral, grosseira, alienante, apontada como machista e reacionária, de ferramenta a serviço dos militares e responsabilizada por instituir o consenso sobre o de baixo nível do cinema nacional, a pornochanchada tornou-se tema controverso e estigmatizado, sendo sistematicamente excluída das discussões sobre cinema brasileiro.

“Implícito em uma peculiar forma de entretenimento de nosso passado recente, reside um bem-sucedido exemplo de diálogo com o público, um extinto e eficaz modelo de se fazer cinema, um tosco ou inocente retrato do que nos atraiu, um estranho registro do que um dia fomos”, diz Alfeu França, curador da mostra.

A exposição fez uma homenagem, com a exibição de 13 cartazes do ilustrador José Luiz Benicio da Fonseca, o Benício, um dos mais requisitados pela indústria do cinema da época das pornochanchadas. Segundo ele: “A composição vinha a partir do tema do filme. Eu primeiro lia a sinopse. Eu nunca vi filme nenhum pronto! Pois o filme ainda nem existia. Eu me baseava muito em foto de still. E daí eu ia compondo o cartaz.” Sobre os corpões das mulheres, Benício declarou: “Eu tirei muita barriguinha de mulher, muita pelanca. Eu era o photoshop da época! Mas eu não tirava a cabeça de uma e colocava no corpo da outra, eu corrigia”.

 

Cartazes

Os cartazes foram um grande suporte de comunicação de massa da época e frequentemente traziam consigo um alto grau de liberdade, ousadia e experimentação em sua forma, como nos descreve Rafael Cardoso em seu texto no catálogo. Baixo orçamento não se traduzia necessariamente por baixa qualidade gráfica, apesar do olhar enviesado da elite pensante e dos profissionais de design gráfico, que, assim como acontece ainda hoje, desprezavam e/ou desconheciam esse material, considerando-os, assim, como os filmes, um subproduto do cinema nacional.

 

Um pouco da história

No final da década de 60, o cinema brasileiro incorporava elementos das comédias italianas de baixo orçamento e representava a revolução nos costumes adicionando uma pitada de erotismo à temática das velhas chanchadas. Sob um governo militar, que desencorajava qualquer debate na arena das ideias, esse novo formato de cinema, de forte apelo popular, encontrou terreno desimpedido para crescer. Surgiu assim o fenômeno da pornochanchada.

Dois polos de produção foram os principais responsáveis pela profusão desses títulos: a Boca do Lixo (região central da cidade de São Paulo) e Beco da Fome (Rua Álvaro Alvim, próximo à Cinelândia, no Rio). O termo pornochanchada só viria a circular na imprensa por volta de 1973, mas no calor do final da década de 1960, o erotismo parecia ser o caminho certo a seguir.

A abundância de lançamentos resultou em uma explosão de novas estrelas: Helena Ramos, Adriana Prieto, Aldine Müller, Rossana Ghessa, Nicole Puzzi, Vera Fischer, Darlene Glória, Patrícia Scalvi, Zilda Mayo, Matilde Mastrangi... Infiltrados nessa constelação feminina, brilhavam os galãs Carlo Mossy e David Cardoso – também empreendedores de sucesso à frente de suas produtoras, Vidya e Dacar.

Em 1978, Amada amante, de Claudio Cunha, e O bem dotado, o homem de Itu, de José Miziara, levariam juntos mais de 5 milhões às salas de exibição. A própria Embrafilme não seria capaz de manter seus olhos fechados para as cifras e para o sucesso das pornochanchadas, passando a financiar produções com toques de erotismo embaladas em uma roupagem mais fina, destinadas a conquistar também um público espectador de classe média. A dama do lotação, de Neville d’Almeida, atraiu 6,5 milhões de espectadores; Eu te amo, de Arnaldo Jabor, teve um público de 3,4 milhões.  

ANO: 2011

Programação Filmes e Debates:

A ilha dos prazeres proibidos (Carlos Reichenbach, 1978)

A super fêmea (Aníbal Massaini Neto, 1973)

A viúva virgem (Pedro Carlos Rovai, 1972)

Ainda agarro essa vizinha (Pedro Carlos Rovai, 1974)

Amada amante (Claudio Cunha, 1978)

As Granfinas e o Camelô (Ismar Porto, 1976)

Convite ao prazer (Walter Hugo Khouri, 1980)

Damas do prazer (Antonio Meliande, 1978)

Dezenove mulheres e um homem (David Cardoso, 1977)

Embalos alucinantes (José Miziara, 1979)

Escola penal de meninas violentadas (Antonio Meliande, 1977)

Giselle (Vitor di Mello, 1980)

Lua de mel e amendoim (Fernando de Barros, Pedro Carlos Rovai,1971)

Ninfas diabólicas (John Doo, 1979)

O inseto do amor (Fauzi Mansur, 1980)

O olho mágico do amor (José Antônio Garcia e Ícaro Martins, 1982)

Possuídas pelo pecado (Jean Garret, 1976)

Sábado alucinante (Claudio Cunha, 1979)

Snuff – Vítimas do prazer (Claudio Cunha, 1977)

Soninha toda pura (Aurélio Teixeira, 1971)

 

Bate-papo com o ilustrador e cartazista Benício

Mesa-redonda: “Pornochanchada – Paixão Nacional”, com a participação de Carlo Mossy (diretor, produtor e ator), Nicole Puzzi (atriz), Andrea Ormond (pesquisadora e crítica de cinema) e Beatriz Kushnir (historiadora). Mediador: Eduardo Souza Lima (jornalista e diretor de cinema).

 

Cartazes em Exposição:

 

TODA DONZELA TEM UM PAI QUE É UMA FERA (1966)

AUDÁCIA! (1970)

O PALÁCIO DOS ANJOS (1970)

LUA DE MEL & AMENDOIM (1971)

A INFIDELIDADE AO ALCANCE DE TODOS (1972)

CAFÉ NA CAMA (1973)

COMO É BOA NOSSA EMPREGADA (1973)

COMO NOS LIVRAR DO SACO (1973)

A NOITE DO DESEJO (1973)

A SUPER FÊMEA (1973)

A VIRGEM (1973)

O PADRE QUE QUERIA PECAR (1974)

SEDUÇÃO: QUALQUER COISA A RESPEITO DO AMOR (1974)

LUCÍOLA, O ANJO PECADOR (1975)

COMO CONSOLAR VIÚVAS (1976)

A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES (1976)

EMBALOS ALUCINANTES : A TROCA DE CASAIS (1979)

MULHER, MULHER (1979)

CONVITE AO PRAZER (1980)

A INSACIÁVEL: TORMENTOS DA CARNE (1980)

ARIELLA (1980)

AMOR, PALAVRA PROSTITUTA (1981)

A REENCARNAÇÃO DO SEXO (1981)

SEXO PROFUNDO (1981)

PRAZER DO SEXO (1982)

SUZY… SEXO ARDENTE (1982)

JEITOSA: ASSUNTO MUITO PARTICULAR (1983)

CAÇADAS ERÓTICAS (1984)

FLOR DO DESEJO: SABRINA NA RONDA DO PRAZER (1984)

PROMISCUIDADE: OS PIVETES DE KÁTIA (1984)

VOLÚPIA DE MULHER (1984)